segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Frases de ônibus (3); Chorar





"Chorar faz bem. Mostra que a gente tem sentimento"


Ela estava vestida de preto. Usava um lenço cor-de-rosa enrolado no pescoço, apertava a bolsa contra o peito. O celular não tocava de jeito nenhum. Correu, subiu no ônibus. Respiração ofegante, sentou perto da janela, a chuva caindo lá fora, desenhando o vidro do ônibus.

Seguia abraçada à bolsa. Na cabeça um flashback. No coração, uma reviravolta de sensações. Tinha medo. Começar uma vida nova dava medo e tinha seus riscos. Por que esperar o telefone tocar? Ele não ia tocar. Ela nem queria que tocasse! Queria apagar para sempre aquela experiência boa que fcou tão ruim, tão sofrida.
Então ela chorou. Uma lágrima escorreu pelas bochechas pálidas, enquanto a água escorria pelo vidro.
O celular toca.
- Filha, o que houve?
- Mãe, estou derretendo o sentimento que há dentro de mim. Só que é tanto sentimento, que em estado líquido, escorreu para fora.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

Frases de ônibus (2): Tatuagens


" Ei, de tanta tatuagem sem noção você vai virar uma figurinha"



Ei, por que você
não tatua na pele

algo de moral?
Porque não tatua na tua cara
um pouco de vergonha?

Enfia no meio da testa
um pouco de inteligência?
Põe nos teus dedos
algo de caridade?
Porque não pendura nas orelhas
a capacidade de ouvir?
Bota no olhar
algo de esperança?
Porque não pendura
na tua língua
um beijo de amor?

Frases de ônibus (1) : Beber, esquecer e lembrar



"Ela bebeu tanto para esquecer
que acabou se lembrando até do que não devia"



Ela bebeu para esquecer
e no final se lembrou
de uma risada estúpida
de um passo torto
de se vestir
de nudez hipócrita.

Ela bebeu até morrer
e reviveu a dor,
fez renascer o medo
a insegurança
a idiotice.

Ela bebeu tanto
para se libertar
que se prendeu para sempre.

Projeto novo: frases de ônibus




O blog andou parado, mas era porque eu estava tramando meu mais novo projeto. Bom, todos que me conhecem sabem que eu uso bastante o transporte coletivo. O que poucos sabem é que é para mim um laboratório observar as pessoas no ônibus, prestar atenção no que dizem, como se comportam, naquele espaço apertado, no intervalo da vida pessoal e da vida profissional, que é o que representa o caminho para o trabalho.

O mais impressionante é que o material recolhido nessas observações são extremamente bons, profundos e intensos. Quem disse que quem anda de ônibus não pensa?Além do mais, existe tanta poesia dentro dos terminais, ônibus e pontos.... Tanta camaradagem entre as pessoas que se vêem todos os dias. Tanto da natureza humana: brigas, declarações de amor, lágrimas doídas, sorrisos, piadas, dor, dificuldades e superações.

Serão publicados aqui mini contos e poemas que escrevi a partir de frases ou situações vividas dentro do trasporte coletivo. Espero que apreciem!

O que eu fui

Eu era rocha
e o mar batia,
machucava, doía.

Aí virei terra
e em frangalhos
ela levada
para todo lado, sem rumo
sem força, sem dor
sem nada.

Aí me calei.
Estagnei.
Esperei.
Me abri a receber o que a vida dava
de bom e de ruim.
Chorei, encharquei o coração
Até que uma semente me tocou
e fiz florescer a flor do sorriso
virei pétala, macia,
que recebe o beijo do beija-flor
a carícia do vento.


segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Plantar, podar e colher




Na vida há o momento semente:
preparar a terra, afundar
a solidão da semente
na imensidão da terra.
Observar o broto meio sem jeito
despertar para o céu,
abrir-se e sorrir para a vida.

Há o momento da poda:
cortar o que não presta,
eliminando o que não serve mais.
Cortar, criar feridas que sangram,
mas que cicatrizadas
proporcionarão crescimento
aprendizado, desenvolvimento.
Mal necessário.

Há o momento de colher a vida:
aprender a receber o que se plantou,
trabalhar a colheita dos frutos.
Saber identificar o que deve ser colhido,
o que deve amadurecer mais.
Saborear os frutos do próprio trabalho.
Apreciar a beleza das flores do próprio suor.

A vida, meus amigos, é plantar, podar e colher.
Mas tudo isso só se torna possível
se regarmos a vida diariamente
com muito amor.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Eu e a Terra

Meus pés têm raízes
que vão para além da terra
para além da pedra.

As raízes dos meus pés são profundas
e buscam o sólido.
Se alimentam do calor
e da força da Terra.

Minhas mãos têm raízes também
vão para além do céu
para além das nuvens

As raízes das minhas mãos são profundas
e buscam o abstrato.
Se alimentam do brilho das estrelas.

E se meus pés buscam força
e minhas mãos buscam luz
eu me conecto ao universo inteiro.

domingo, 7 de agosto de 2011

Passeios insanos

Ando de um lado a outro
Procurando respostas.
Que besteira!
quem eu sou não cabe
na prateleira da biblioteca
nem na cozinha
e muito menos debaixo do sofá.
Mas sigo andando
movendo o corpo pela casa
cabeça buscando respostas
dentro dela mesma
mesmo sabendo que não as encontrará.
Porque todas as respostas do mundo
só podem ser encontradas
no coração.
Pena o coração não ter boca
para contar todos os segredos
e encantamentos do mundo.
O que resta é tentar escolhas,
sentir o que ele sente
e descobrir o caminho certo
quando sentir que ele sorri.

domingo, 31 de julho de 2011

Meio perdida, meio encontrada

Tá, começar de novo dá trabalho.
Quem disse que é fácil
redesenhar os planos
refazer os sonhos
repintar o branco e preto
que estava a minha vida?

Mas é subir no salto
me equilibrar
respirar fundo
contar até 3
ensaiar um passos desengonçados
que com treino e esforço
se transformarão um dia
em um caminhar em paz.

domingo, 17 de julho de 2011

Bem lá no fundo

Olhando de pertinho, lá no fundo
mais pra lá do mais além
Ainda floresce em mim
ideias, sonhos
encantos, esperanças
resolvi regar, botar no sol
deixar o que floresce em mim
respirar
e tentar fazer com que essas
poucas flores escondidas
venham à tona
na minha vida.


segunda-feira, 11 de julho de 2011

Levanta, sacode a poeira

Enxuguei as lágrimas
e treinei sorrir na frente do espelho.
Contei até 3 e subi no salto
Ensaiei passinhos na sala
prendi o cabelo e a franja soltou
esbanjando personalidade.
As ideias encaraminholando
na caixola
abri bem os olhos de dentro
fucei lá dentro e fiz uma faxina
joguei montes de coisas fora
e enfiei um monte de coisas de fora dentro.
Tudo inverso e insensato.
Respirei
Suspirei
e decidi enfrentar o mundo
para ser feliz.




segunda-feira, 20 de junho de 2011

O medo

O medo é um fantasma que me visita
quando estou dormindo
Ele me conta histórias de terror
e muitas vezes me faz acreditar nelas.

Como gosta de me pregar peças!
E não tem graça nenhuma
tê-lo comigo.
Eu fujo, saio correndo
em disparada
Acordo esbaforida
trêmula.
Porque é tão difícil
livrar-se do medo
quando se está só
e não se pode ter
um abraço?


quinta-feira, 16 de junho de 2011

A tardinha


A tarde cai devagar
pintando o céu de vermelho
eu só observo da janela
olhos secos
boca num sorriso feio.

O frio fere a pele do rosto
e canta nos ouvidos.
A solidão me abraça
convencida que sou só dela
e de mais ninguém.

A noite chega, devagar
eu observando pelo vidro
olhos úmidos
boca numa canção doída.

Escureço,
junto com a noite
quieta e calada.


terça-feira, 14 de junho de 2011

Lira do coração estrelado



Eu pulei até o carnaval, amor,
procurando ao menos a alegria
de ter um olhar seu.
Procurei o sabor do seu beijo
nos mais finos doces,
busquei o brilho do seu sorriso
nos faróis dos carros
do trânsito acelerado de São Paulo.


Nem o calor do seu abraço consegui,
e o busquei num delicioso
abrigo de lã....
Não, não foi possível.

E o que ficou?
Superficialidade,
Sorriso ensaiado,
O frio da garoa.
Eu te dei tanto
e você me deu tão pouco.

O coração é ilógico,
tão quanto um jogo de dados.
E eu sou tão lírica
quanto uma estrela...


sábado, 11 de junho de 2011

Conjugando a solidão

Eu estou só.
Fui só.
Serei só.
Como o fogo que queima
até virar cinzas,
fumaça livre no vento
voando sem rumo
sem pertencer a ninguém.

Eu queria ser flor,
encanto, espanto.
Canário do campo,
para ao menos cantar
meu canto triste.

Mas sou mulher
e ando no asfalto
atravesso a dor
e sorrio um
sorriso de ser só.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Ponto para você



Ok, vida, eu confesso
Que vinha sorrindo com vontade de chorar.
saia de casa sem vontade de sair do quarto
que consolava os outros sem consolo para mim mesma

Eu declaro pra todo mundo ouvir
que me arrumava pra os outros
com vergonha de me olhar no espelho
que fingia de forte
e forte não era.

Que disfarçava as dores de dentro
mas que tudo seguia doendo igual
Que me vestia de cores
e lá dentro estava tudo cinza.

Você me pegou. Derrubou meu disfarce.
Ponto para você.






sábado, 5 de março de 2011

Metrô Consolação



Humanidade
de chorar anônimo
em meio a pessoas elétricas correndo
passando aceleradamente como a vida passa

Chorar anônimo é o verdadeiro consolo
necessário para esvaziar-se
e reunir forças para andar adiante

Na Consolação,
Chorar em meio a gente
sem ser visto por ninguém
nem por você mesmo


Esquecer de ser

O meu mundo tem páginas infinitas
com histórias múltiplas
exóticas e diferentes
divididas em milhares de tomos.
Cada tomo, milhares de páginas,
Em cada página, histórias múltiplas
mas todas escritas com letras negras
em páginas brancas que de tão infinitas
não há eternidade que possa existir
para me dar o poder de ter conhecimento de todas.

Livrarias e bibliotecas são para mim
espaços mais sagrados que igrejas.
Eu me sinto protegida do mundo
como se aí ninguém pudesse me fazer mal.
Os livros consolam a alma
ocultam a dor
Te levam para outros mundos
outros céus, infinitos.

O livro é uma alucinação.
A coisa é que ele um dia acaba
e toda a dor volta.
Sofrer com a personagem serve para esquecer
o meu próprio sofrimento.

Eu queria morar assim
Numa imensidão de livros
Para ler um atrás do outro
e esquecer quem sou
e porque estou aqui.

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Confissão

Todos os dias eu coloco a máscara de rir
para todo mundo
crianças, homens e mulheres
de fingir que está tudo bem
de fazer o papel de mulher maravilha
Porque eu tenho vergonha dos meus fracassos
da minha incapacidade de sobreviver nesse mundo mentiroso,
de curar minhas próprias feridas

Todos os dias eu sorrio no espelho,
mesmo chorando,
para tentar acreditar que posso ser feliz.

Fazer o quê?
Preciso acreditar uma vez mais.
Há outra opção por acaso?
Outra, que não seja se agarrar às raízes que ainda restam
e subir todo o abismo
chegar cambaleante lá em cima
e tropeçando andar
um pé após o outro
sem destino
com a roupa do corpo
e uns sonhos presos aos cabelos?

Sei que posso desistir.... Ficar lá nas entranhas das montanhas
deitar o corpo e esperar a brisa levar
o espírito que eu tenho dentro.

Ah, teimosia! Você não deixa!
Nunca sai de mim e me empurra
mesmo quando eu não quero ir
me faz viver mesmo quando quero morrer
me faz emendar dias e dias desperta
tentando ser feliz.



segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

Saga da dor

Uma ferida imensa era o meu coração

Carne com nervos embolados

Sentindo tudo ao mesmo tempo

Doendo todas as dores

Lá no chão pequena

Chorando

Como uma criança sem rumo

Numa noite escura Deus ouviu meu desespero

E mandou um anjo nessa noite triste

Me dizer que a esperança é flor

e botou uma pequena semente em minhas mãos

E disse que se a gente rega e cuida

Ela cresce e ilumina

Ele me deu um sol para botar nos cabelos

E minha cabeça clareou as ideias

O anjo de Deus também tocou minhas feridas

Botou remédio

Disse que isso não tem jeito

Que tem que doer muito

Para eu ser mais forte um dia

O anjo tinha um olhar triste

Mas que tinha uma alegria escondida dentro.

E eu resolvi tentar um dia mais

A lutar contra a dor grande

Porque um anjo desceu do céu

A pedido de Deus

Para me dizer que apesar de doer muito

Ele está comigo.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

Despedidas - I


A despedida é uma dor que umedece os olhos. Minha primeira despedida foi quanto eu tinha 10 anos. Minha avó estava deitada na cama, respirando com dificuldade. Chovia muito, o céu era só raios e nuvens escuras. Ela tinha medo e eu segurei suas mãos, já meio frias e machucadas pelas picadas insistentes das agulhas. Pensava que assim pudesse aliviar um pouco seu medo e sua dor. Ela olhou pra mim. Um olhar piedoso, quase azul, desses que só os seres divinos podem nos dar. Ela me olhou e sorriu. Uma lágrima quente caiu de seus olhos. E o resto do calor que aquele corpo ainda guardava se foi naquela lágrima que ela me deixou. Uma lágrima e um sorriso. O resumo do que é a vida.