domingo, 30 de setembro de 2007

Triste


Hoje estou triste
Mas não estou abalada
Pelo fato de viver num país anti-democrático
Nem porque vivo no escuro.
Não estou desiludida por não ser amada
Nem porque meu aconchego é a solidão.
Não tenho raiva por causa da guerra.
Não tenho riso,
Não tenho brilho,
Não me sinto perdida.
Carrego apenas o obscurantismo de ser
E oca, vago no infinito.

sábado, 29 de setembro de 2007

Rosa

Meninas são mulheres
que olham para dentro
Que se despem dos valores deste mundo
Para se vestirem de sonho

Meninas olham para o céu
para contar nuvens
e sonhar com estrelas distantes

Encantam mesmo feias.
Meninas são belas por dentro
sorriem desengonçadas
sorrisos sinceros

Saltam imposições
voam mesmo sem asas.
Libertam tristezas porque sabem chorá-las.
Meninas derramam lágrimas
Secam tristezas, jamais o coração.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

Apelo Moderno


São Jorge
Livra-nos do dragão
Da Inflação,
Amém!

Nossa Senhora Aparecida
Não nos deixe cair na tentação
Da Corrupção
Amém!

Arcanjos dos céus
Protejam-me do cinismo
Do Capitalismo
Amém!

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

Cotidiano Engessado



Janela se abre
O Sol nasce
Ônibus lotado
Pensamentos atados
Escritório fechado.

Meio-dia
Hora tardia
Brinco com a comida
Repleta, vazia
Pausa na vida.

A noite escura
A lua procura, presa na busca
Que o livro rebusca mas que a alma não cura.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Um monólogo


Solidão é estar junto........ consigo mesmo

Conversar....................com o próprio coração

Estancar feridas.............da própria alma

Calar a dor...................de si mesma.

Encontrar-se.................no próprio corpo

É amar! Independentemente de ser amada.

É conformar-se....................................com a partida

daquele que afirmou seu desamor

atiçou a dor e me apontou o inferno

no qual eu não quis caminhar..........sozinha.

Solidão é trancar-se e perder-se para sempre

dentro da própria alma

entender-se, não mais cobrar-se

consolar-se no próprio abraço!

emocionar-se com a música produzida pelo girar do mundo

e umedecer o olhar diante do pôr-do-sol.

Solidão é aceitar sua própria escuridão

terça-feira, 25 de setembro de 2007

Psicodélica




Eu naveguei na maionese
Até entrar num país esquisito
Cheio de frescura,
Good-byes, So longs,
Coca-Cola always,
Dead-lines....

Desesperada,
Naufraguei.
Me afundei
E fiquei encucada
por séculos completos
dormindo enfeitiçada

O príncipe não veio, uma pena!
Cansada de esperar, gritei,
Até chegar um cavalo alado
Azul celeste que me carregou
para um prédio de 30 andares!

Comprei um jeans e cortei as tranças
Calcei um tênis sem cadarço
E resolvi olhar a vida de baixo
Pés no chão, sem nuvens
com papos desconectados
Essa é minha nova realidade.


segunda-feira, 24 de setembro de 2007


Raiva

Arrebatamento vermelho
de contrariedades.
È um não insistente:
Um não querer saber
não entender.
É um caminho perigoso
Trilha de minas explosivas.
É estar cheio
Ser impetuoso
Armado até os dentes
Cheio de não me toques
Louco pra dar o troco.

Affeur

Teus olhos tão negros,
Tão brancos
Tão agitados,
Tão tranqüilos,
Me prendem no infinito...
E me espanto!
Acordo cantando,
Presa por vontade
Aos teus caprichos de amor.

domingo, 23 de setembro de 2007

VIVIR

Olá amigos! Agradeço a visita e o apoio de todos vocês!

Abaixo segue a bela tradução do poema "Viver", tecida pelo meu amigo Jorge Abril. Obrigada Jorge pela amizade e pelo carinho!
Abajo sigue una bella traducción del poema "Viver", tejida por mi amigo Jorge Abril. Gracias Jorge por su amistad y cariño!



VIVIR

Mi vida es la simplicidad del camino solitario
del calmo andar en la ciudad ,
de un sentimiento humanitario
por los niños sin edad.
Mi vida es ansiedad, tonto sentir solidario
que se esconde en un solario
sin aire ni libertad
(traducción de Jorge Abril)

sábado, 22 de setembro de 2007

Vida

La vida es una lucha entre lo que es triste y lo que es bello. Cuando la belleza supera la tristeza, los ojos son luz, que resplandecen, por minutos que sea, la seguridad de vivir. El corazón repleto de belleza deja el alma sonreír.

Cuando la tristeza es suprema, usa la belleza para probar la duda. Los ojos entonces son cristales, que anuncian que los espacios del corazón están ocupados por una abrupta melancolía. El alma sufre, perdida, contornsionándose con la duda de no comprender porque allí está.

Muchas son las batallas. Y en la alternancia de los vencedores, vivimos entre la duda y la seguridad, entre la emoción y la razón. Entre lo que es triste y lo que bello es.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Estação Saudade



Você pegou na minha mão
E abriu-se o céu sobre a terra
Que enfeitou-se de sons e cores.

Eu encabulei,
baixei meus olhos diante da realeza do teu olhar
da luz do teu sorriso.

E minha mão, derreteu.
Você moldou-a de novo com carícias
E me vi mulher.

Sim! Mulher nessa vida intensa e bela
Com que tu me presenteastes antes de me deixar
Na estação Saudade.


terça-feira, 18 de setembro de 2007

Menina


Eu sou menina faceira,
Sentada no alto das nuvens;
Perninhas soltas no ar.
Vento, ar, azul.

Eu sou menina,
Tranças largas
Olhos redondos
Presos no infinito.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007


Viver

Minha vida é a simplicidade
Do caminho solitário,
De passos calmos na cidade;
De um olhar humanitário
Sob as crianças sem idade.

Minha vida é saudade.
Sentimento mais otário,
Que guarda minha alma num solário,
Sem ar, sem liberdade.

domingo, 16 de setembro de 2007

Eu?



Eu, nacionalista?
Só amo minha terra
Porque me pariu!

Eu, socialista?
Só olho por quem
Olha por mim!

Eu, anarquista?
Se emudeço o grito
Na garganta!

Vida artista!
Papéis invertidos,
Vidas trocadas...

sexta-feira, 14 de setembro de 2007


Enigma

Quando meu amado aqui não está
Sou a chuva que cai, límpida e transparente,
Purificando o coração dos homens.
Sou mendiga, cega, órfã,
Desfalecida, sozinha.

Sou o deserto e suas maldições,
Árida, salgada, amarga.
Sou o decrépito, o satânico
Sou a lua branca, que isolada
Pendura-se na escuridão, escondida nas nuvens.

Mas sei que meu amado volta
Disco solar, sol de primavera
Que acalenta as pequenas flores
Acaricia-lhe as pétalas,
Enxuga-lhes o orvalho do pranto.

Amarelo luz
No céu azul.
Sorrindo,
Porque volta
Para os meus braços...

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Sigo!

E ansiosa, coração na mão sigo,
Porque só para frente hei de andar!
Sorriso nos lábios, olhar tranqüilo;
Falar agitado, mãos alvoroçadas.

Viver não se poupa:
O amanhã é uma possibilidade
Incógnita que incentiva o caminhar.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Onde andará?


Onde há esperança?
No horizonte? Afinal o sol nasceu...
No canto, onde a lágrima é verdadeira?
No espanto, que é o que nos impulsiona a viver?
Ou talvez nos olhos que se fecharam para mim?
Ou no encanto, que de repente se quebrou?

Onde, me diga!
Na brisa azul onde pairam as nuvens brancas?
Na lua que brilha sozinha no breu?
Na canção que feneceu?
Ou talvez na luz que se apagou?
........................................................................

Mas talvez haja esperança no coração
porque ele ainda bate
não morreu...

terça-feira, 11 de setembro de 2007

Café

Abre as portas da alma,
doce e negro,
espuma branca,
remédio do irremediável.
E feito chantilly
eu me derreto,
enternecida de consolo,
pelo quente,
doce e negro,
que acalenta o coração.
E feito açúcar
desaparece a melancolia
que mesmo não visível
dá sabor à vida....

Sorriso

Eu me amo.
Ora, se eu me amo,
eu me amo sorrindo.
Por isso nada pode derrubar meu sorriso.

Sabe o que farei quando alguém
tentar derrubar o meu sorriso?
Vou sorrir um sorriso maior,
mais brilhante,
cheio de encantamento!
E os outros que fiquem de cara azeda.
Porque eu me amo
e me amo porque tenho a capacidade de sorrir!

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Romântica




Não existem adjetivos que contemplem a totalidade do que sinto por você em nenhum língua, em nenhum lugar deste mundo. Por que o que sinto por você é único. Por que o que vislumbro dentro de teus olhos é como um feitiço, o qual não tenho forças para lutar em contra, simplesmente porque não quero lutar contra ele. Quero sim ser absorvida por este castanho que me encanta, quero é ser sugada por ele, e transportada para outras esferas, outros mundos. Ambiciono através deles adentrar tua alma, povoar teus pensamentos, colorir as paredes de teu coração, da maneira que você fez comigo. Quero ser tua. E vivo a ânsia de caber dentro do teu abraço. Almejo ser digna de ouvir teu coração falar ao meu. Desejo teus olhos nos meus, tua boca na minha.
E a minha pele grita a urgência dos teus carinhos, teus afagos, tuas mãos nos meus cabelos. E os meus olhos ficam aflitos quando não estão mergulhados no lago profundo e misterioso do teu olhar. E meu corpo mingua se não está perto do teu. E envelheço 100 anos a cada segundo longe de ti. E louca, me ponho a vagar por aí, a tua procura...

Até que você chega. E cega tudo com a luz do seu sorriso solto, seu jeito de andar tranqüilo. E então seus olhos pousam nos meus. Eu morro e ressuscito, infinitas vezes. Meu corpo febril joga-se em seus braços, meus pulmões sugam seu perfume. E é ali, nos teu abraço que eu me completo, que me sinto única, preciosa. E teus lábios abrem-se num sorriso que me hipnotiza. Eu amoleço em teus braços, sussurrando no teu ouvido coisas bonitas. Minha alma, repleta, emociona-se. E meu coração segue o teu compasso. E eu respiro o ar que você respira.Você pronuncia as palavras mágicas do encantamento do amor, me atando à tua vida. Eu acarinho-lhe a nuca. Meu coração grita que é teu. E dos meus olhos derramam-se cristais que os fazem brilhar, refletindo a luz que vem do teu castanho. E eu me vejo em tuas pupilas, me sentindo a mulher mais feliz do mundo!

Tu me entendes e me conheces, até mais que eu! E me presenteia com teu amor. Teu amor belo, tenro, doce, que eu aninho nas minhas mãos, guardando no coração. Tu me beijas com ânsia de quem ama, retendo-me em teus braços fortes que me amparam na vertigem do amar. E eu, agarrada a ti, sinto teu coração chamar meu nome.

sábado, 8 de setembro de 2007



Delírio

É aqui acariciando um copo de guaraná,
Pensamento solto no ar...
Olhos parados em algum ponto colorido,
Que vejo teu sorriso iluminado,
Sacaneando comigo,
Rindo da saudade que sinto!

E teu olhar me atordoa:
Teus sentidos, mistérios.
Me faço de forte, minto,
Enquanto minha alma voa
Para dizer no teu ouvido,
improvisos dignos do Oráculo de Delfos
.

sexta-feira, 7 de setembro de 2007


Tentar sempre!

Tentar sempre!
Mesmo que o tombo seja grande,
A dor dilacerante,
A escuridão alucinante.

Tentar sempre!
Mesmo quando não há mais perspectiva.
Mesmo que estejas aflita,
E a infelicidade te persiga.

Tentar sempre!
Porque se findar a perseverança.
Se calar a esperança,
É teu sonho que se perde,
É tua beleza que se esconde,
É tua vida que termina.

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Um poema
Sofia era só tristeza. Sentada no meio-fio,
Abraçada aos seus próprios lamentos
Via os carros passarem
Via as pessoas correrem
Só o nó na garganta não se ia

Sofia baixou os olhos
Ouvia o ronronar dos motores
Ouvia os risos, os dissabores
Dos transeuntes apáticos ao meio fio
Apáticos à tristeza dela

Até que um ser parou
Ser, porque não era gente
Ser, porque não era anjo
E que mesmo sem ser anjo lhe deu a mão

E mesmo sem asas ela voou
E mesmo sem querer sorriu
E viu o seu sorriso
No olhar do outro
Era tão bonito!

Sofia era só esperança
Andando no fio, do meio
Da vida.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Moça Tecelã

Palavras nascem de meus dedos,
Entremeios, sonhos, paixões
Que saem sem rodeios.
Espanta-me suas novas conexões.

Vou assim aliviando minha dor
Que se esvai em hieróglifos perdidos.
Vou assim levando a vida com amor,
Construindo sonhos antes esquecidos.
Escrevo com raios de sol
Nas noites mais escuras
Ligando todas as estrelas
Até a branca lua.

Escrevo com meu olhar
Nas mais diversas cores
Em uma linha reta,
Da minha vida, os dissabores.

Vou tecendo aos poucos os caminhos
Que desejo reencontrar.
Com a linha da eternidade,
Quero o mundo decifrar.

Gris



O sol hoje nasceu esquisito. Nasceu e mesmo assim não está. Está lá a luz amarela, fria que não aquece. A chuva veio; uma chuva que de tão fina não molha. Só está ali, formando nuvens. Nuvens que escondem o céu. Eu me levantei, o corpo reclamando a cama quente. Como todos os dias me vesti, engoli o café com leite e saí, enfrentando as paredes de concreto.
Como é possível de repente nada mais fazer sentido? Como é possível de repente ser fugitivo de si mesmo? E a angústia ficou plastificada. E as feições endureceram. E o coração... sei lá onde se escondeu.


Ronca o motor do carro nas filas intermináveis do engarrafamento. Os solitários carros incomunicáveis, vidros fechados para o horizonte.

“Tio, tem uma moeda?”


Carro parado no meio-fio úmido, passos largos, olhos perdidos no cinza. O crachá pesa no pescoço. Corro ocupar a mesa de todos os dias, atando os dedos ao teclado. Nascem ondas de papel da impressora. Engolir o café, amassar o copinho de plástico para livrar-se da raiva. O copinho vai para a lixeira, a raiva continua ali angustiando, brincando por dentro de mim. E o copinho estraçalhado.


Um telefone interrompe o barulho insuportável do silêncio. Na mesa, castelos de sulfite... E os dedos condicionados digitando, digitando, digitando sabe-se lá o quê. Um formulário, um relatório, um martírio.

(Atrás das nuvens escuras um céu azul acolhe um sol cheio de calor, que esconde-se ali do mundo dos homens.)

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Hoy el sol nació extraño. Nació y aún así no existe, no se nota. La luz amarilla puede verse, pero es fría, no calienta. Llega la lluvia, una lluvia que de tan fina no moja. Sólo se encuentra allí formando nubes. Nubes que ocultan el cielo. Me levanto, el cuerpo reclamando aun por la cama caliente.


Automáticamente me visto, tomo mi desayuno y salgo enfrentando las paredes grises y el gris del concreto. ¿Como es posible que de repente todo carezca de sentido? ¿Como es posible que de repente uno se transforme en fugitivo de si mismo? La angustia queda plastificada. El semblante endurece. Y el corazón...sabe Dios donde se esconde.

¨
Se oye el zumbido de los motores de los autos en las interminables
filas de los atascos. Los autos solitarios, incomunicables, vidrios cerrados al horizonte.


- ¿Tío, me da una monedita ?


El auto parado al lado del cordón húmedo, pasos largos, ojos perdidos En el cuello pesa la tarjeta de identificación. Me apresuro a ocupar el escritorio de todos los días, atando los dedos al teclado.


Surgen olas de papel de la maquina impresora.-Tomar el café, aplastar el vaso plástico como para liberarse de la rabia.- El vaso va a parar al cesto de papeles y la rabia continua allí, angustiando como jugando dentro de mi cuerpo. Y el vaso desmenuzado.
La campanilla de un teléfono interrumpe el ruido insoportable del silencio. En el escritorio, pilas, torres, castillos de papel sulfita...Y los dedos condicionados digitando, digitando, digitando, quien sabe que. Un formulario, un informe, un martirio.

(Detras de las nubes oscuras un cielo azul recibe un sol lleno de calor, que se esconde allí del mundo de los hombres.)

(versión en español por Jorge Abril)

terça-feira, 4 de setembro de 2007




AZUL

As ondas lambiam a praia. Ela só caminhava, deixando os pés serem ungidos pela água salgada. Ela só caminhava, deixando lágrimas transparentes e límpidas lhe escorregarem pelo rosto.
Naquele minuto, tudo parou. E ela transformou-se em matéria líquida, que derretia por dentro e chorava para fora. O céu alvíssimo lá em cima só servia para sustentar o sol que lhe evaporava as dores, consolando a carne. Mas a alma estava lá, trêmula, medrosa, embolada no umbigo.
Ela olhou o mar esperando respostas e o mar só podia lhe dar perguntas. O mar viu os olhos de Laura repletos de gotas azuis e lhe cantou uma canção murmurejante, cheia de espuma.
A água chegava-lhe nos joelhos, quando ela se abraçou ao suéter de lã. As ondas desenhavam com sal e areia estampas na barra do vestido. Quis afogar o pranto, desejou caminhar até o fundo atrás de uma saída. Fechou os olhos, o vento penteando os cabelos encaracolados para trás, deixando o rosto a mostra, pálpebras guardando as duas pedras de água-marinha transparentes.


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Las olas lamían la playa. Ella caminaba sola, dejando que sus pies fuesen mojados por el agua salada. Sólo caminaba dejando que lágrimas transparentes y límpidas corrieran por su rostro.
En ese momento todo paró. Y ella se transformó en materia líquida que se derretía por dentro y hacia afuera, lloraba. Encima, el cielo muy blanco sólo servía para sustentar el sol que le aliviaba los dolores, consolando su carne. Pero el alma estaba allí, trémula, asustada, agazapada en su ombligo..

Miró el mar esperando respuestas y el mar sólo pudo hacerle nuevas preguntas. El mar vió los ojos de Laura llenos de gotas azules y le cantó una dulce canción en un murmullo lleno de espuma.

El agua le llegaba a los tobillos cuando ella se abrazó al suéter de lana. Las olas dibujaban con sal y arena estampas en el dobladillo de su vestido. Quiso ahogar el llanto. Deseó caminar hasta lo más profundo, procurar una salida. Cerró sus ojos, el viento de frente era como si peinara sus cabellos rizados hacia atrás, dejando libre sus ojos. Los párpados guardaban dos piedras de aguamarinas transparentes

(versión en español por Jorge Abril)



Lilás

Quando Clara queria estar só, tirava os óculos e via o mundo “a la Monet”. As placas viravam desenhos, os desenhos viravam borrões. E os borrões formavam figuras, que às vezes viravam letras. Os edifícios ficavam mais altos, as luzes desfocadas. Descia uma neblina branca, e o ambiente se tornava repleto de um mistério inglês.

Livre de lentes, tudo era bruto, dentro de uma penumbra esvoaçante. Não havia sorriso nem pranto nos rostos alheios. Não havia cobranças. Só uma Clara sensível às coisas de uma forma diferente. Uma observadora de binóculo embaçado que podia, enfim, experimentar de novo aquela mesma sensação infantil de que, se não vemos, não somos vistos.

Quando Clara arrancava os óculos, se despia do mundo. Conectava-se a um esconderijo onde podia escutar as batidas de seu coração, sentir o aroma da sua própria pele. Apreciar suas próprias texturas. Como se a miopia fosse a chave “desliga”: não lhe fazia mais sentido a legibilidade que lhe proporcionavam as lentes, o enfoque que abria a densa cortina de neblina que a envolvia.

E quando tudo se dissolvia no espaço ela fechava os olhos. E se perdia em seus próprios labirintos.
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Cuando Clara quería estar sola, se sacaba los anteojos y así veía el mundo " a la Monet". Los anuncios se transformaban en dibujos y estos en borrones. Y los borrones se transformaban en figuras que después parecían letras. Los edificios parecían más altos y las luces fuera de foco. Bajaba una neblina blanca y el ambiente se sumergía como en un misterio inglés.

Sin anteojos todo era bruto, como fluctuante en medio de la penumbra. No había risas ni lágrimas en los rostros ajenos. No había reclamaciones. Sólo Clara sensible a las cosas de una forma diferente. Era una observadora, con lentes empañados que podía finalmente experimentar otra vez aquella misma sensación infantil de que si no vemos, no seremos vistos.

Cuando Clara se sacaba sus anteojos, se denudaba al mundo. Se conectaba a un escondite desde donde podía escuchar los latidos de su corazón, sentir el aroma de su propia piel. Apreciar sus propias texturas. Como si la miopía fuese el interruptor: ya no tenía sentido la visión que le proporcionaban las lentes o el enfoque que abría la densa cortina de niebla que la cubría.

Y cuando todo se disolvía en el espacio, ella cerraba los ojos. Y se perdía en sus propios laberintos.
(versión en español por Jorge Abril)

segunda-feira, 3 de setembro de 2007


Eu sorri prá ele
E vi a sua alma acender-se
como estrelas iluminam a noite escura.
Seus olhos tão especiais,
dois candeeiros castanhos


Meu coração se alegrou
e eu o amei naquele dia
no depois, e no outro.
Para sempre aqueles olhos
aquela luz refletida num sorriso...


domingo, 2 de setembro de 2007


Serenata

O violão chora
Suas notas desconsoladas
Lágrimas de som,
som seco, cansado

O violão canta
Sua música solitária
De seis cordas
Seis amigos
Que se unem diferentes em compasso igual

A brisa, emocionada
Com a beleza arranjada
Em acordes desolados
Leva o som para os quatro cantos.
E enche o ambiente de música;
E preenche a vida já melancólica;
Trilha sonora do coração apaixonado.
Da menina emocionada.
Que derrama suas lágrimas
Da sacada enluarada.

sábado, 1 de setembro de 2007



Era novembro. Um novembro de verão, desses em que as crianças correm pelas ruas levantando poeira com suas brincadeiras. Os risos infantis corriam independentes dos choros abafados de uma ditadura que ainda perdurava neste 1983 cinza . Ano das longas listas das multinacionais cheias de gente transformada em números, números que alimentavam as estatísticas de demitidos políticos. Minha mãe, barrigão, matava os desejos da gravidez com sorvete de frutas e muita limonada. Meu pai não conseguia matar a insônia de preocupação que o perseguia todas as noites.
Mamãe, com três filhas, a quarta na barriga, queria um menino. Sonhava com o garoto que ia vir, e que ela chamava Rafael. Meu pai, doido por mais uma menina, do seu canto, faz a proposta: “se for garota, eu escolho o nome”.
No dia 17, depois de uma longa noite em que a criança, para desgraça da mãe, não queria nascer de jeito nenhum, o doutor resolve tomar medidas drásticas: tirou à força a menina sonhadora da barriga da D. Elisabete e a botou à luz da realidade. O choro estridente anunciou que a vida não era quente e aconchegante como o sonho: nasceu eu, perto das 10h, fazendo o alvoroço característico dos recém-nascidos. Papai, emocionado com o quarto neném nos braços, volta pra casa anunciando que a criança nascera sã. “Mas é menino ou menina?” perguntaram todos. “Esqueci de olhar!”, diz ele inconformado, que de volta ao hospital vê a luz cor-de-rosa. Passos decididos, corre para o cartório, e registra: Damiana. Damiana, nome de sua bisavó. Mamãe esbraveja o nome “grande e pesado”, ao qual até hoje não se acostumou de todo.
Desde pequena, alguma coisa estava diferente. Como no meu aniversário de um ano, que passei escondida debaixo do berço. Engraçado que apesar de não me esconder mais debaixo da cama, por imposições sociais, que isso fique bem claro, nutro a mesma vontade de esconder-me do mundo nesses dias dezessetes de novembro, sempre frios e estranhos. Falava um idioma esquisito, gostava de um bom achocolatado (vício que carrego até os dias de hoje), queria era mesmo brincar. Feito gatinho, desses matreiros, ia me aconchegando no colo das pessoas.
Papai então toma a decisão que mudaria para sempre a vida da minha família. Pega o dinheiro da aposentadoria e faz uma casa no interior de São Paulo, onde o ar era melhor, havia verde e muitas flores e mais segurança. O que aconteceu foi que não havia emprego, nem boas escolas. Eu me lembro era do sotaque interrriorrrano que eu carregava, do sapo que vivia debaixo do tanque, das centenas de bichos que meu pai instalou na casa, do quintal grande, da terra vermelha, e do meu gato Pepi, com seus movimentos preguiçosos, vindo para o meu colo,. Lembro, com alegria imensa, o dia que papai anunciou à nossa volta à civilização. E, de olhinhos curiosos, vislumbrei a cidade em que viveria por mais de vinte anos. Cidade que nunca cheguei a compreender e que, talvez por isso, amei tanto.
A pressa das pessoas, as faixas de pedestre que com o tempo deixei de usar, as buzinas irritadiças, as pichações, o cheiro de gasolina. As placas que nunca segui, os ônibus de bancos altos (dava pra balançar as pernas...). Tinha também casas umas em cima das outras. A minha era assim. Apesar de morar no alto, o céu ficava mais alto ainda. Não era como no interior em que eu deitava de barriga para cima no quintal e brincava de “pegar nuvens”. As nuvens eram meio ranzinzas, viviam longe... Parecia até que elas tinham medo dos homens.