Era novembro. Um novembro de verão, desses em que as crianças correm pelas ruas levantando poeira com suas brincadeiras. Os risos infantis corriam independentes dos choros abafados de uma ditadura que ainda perdurava neste 1983 cinza . Ano das longas listas das multinacionais cheias de gente transformada em números, números que alimentavam as estatísticas de demitidos políticos. Minha mãe, barrigão, matava os desejos da gravidez com sorvete de frutas e muita limonada. Meu pai não conseguia matar a insônia de preocupação que o perseguia todas as noites.
Mamãe, com três filhas, a quarta na barriga, queria um menino. Sonhava com o garoto que ia vir, e que ela chamava Rafael. Meu pai, doido por mais uma menina, do seu canto, faz a proposta: “se for garota, eu escolho o nome”.
No dia 17, depois de uma longa noite em que a criança, para desgraça da mãe, não queria nascer de jeito nenhum, o doutor resolve tomar medidas drásticas: tirou à força a menina sonhadora da barriga da D. Elisabete e a botou à luz da realidade. O choro estridente anunciou que a vida não era quente e aconchegante como o sonho: nasceu eu, perto das 10h, fazendo o alvoroço característico dos recém-nascidos. Papai, emocionado com o quarto neném nos braços, volta pra casa anunciando que a criança nascera sã. “Mas é menino ou menina?” perguntaram todos. “Esqueci de olhar!”, diz ele inconformado, que de volta ao hospital vê a luz cor-de-rosa. Passos decididos, corre para o cartório, e registra: Damiana. Damiana, nome de sua bisavó. Mamãe esbraveja o nome “grande e pesado”, ao qual até hoje não se acostumou de todo.
Desde pequena, alguma coisa estava diferente. Como no meu aniversário de um ano, que passei escondida debaixo do berço. Engraçado que apesar de não me esconder mais debaixo da cama, por imposições sociais, que isso fique bem claro, nutro a mesma vontade de esconder-me do mundo nesses dias dezessetes de novembro, sempre frios e estranhos. Falava um idioma esquisito, gostava de um bom achocolatado (vício que carrego até os dias de hoje), queria era mesmo brincar. Feito gatinho, desses matreiros, ia me aconchegando no colo das pessoas.
Papai então toma a decisão que mudaria para sempre a vida da minha família. Pega o dinheiro da aposentadoria e faz uma casa no interior de São Paulo, onde o ar era melhor, havia verde e muitas flores e mais segurança. O que aconteceu foi que não havia emprego, nem boas escolas. Eu me lembro era do sotaque interrriorrrano que eu carregava, do sapo que vivia debaixo do tanque, das centenas de bichos que meu pai instalou na casa, do quintal grande, da terra vermelha, e do meu gato Pepi, com seus movimentos preguiçosos, vindo para o meu colo,. Lembro, com alegria imensa, o dia que papai anunciou à nossa volta à civilização. E, de olhinhos curiosos, vislumbrei a cidade em que viveria por mais de vinte anos. Cidade que nunca cheguei a compreender e que, talvez por isso, amei tanto.
A pressa das pessoas, as faixas de pedestre que com o tempo deixei de usar, as buzinas irritadiças, as pichações, o cheiro de gasolina. As placas que nunca segui, os ônibus de bancos altos (dava pra balançar as pernas...). Tinha também casas umas em cima das outras. A minha era assim. Apesar de morar no alto, o céu ficava mais alto ainda. Não era como no interior em que eu deitava de barriga para cima no quintal e brincava de “pegar nuvens”. As nuvens eram meio ranzinzas, viviam longe... Parecia até que elas tinham medo dos homens.

Comentários

Andréa disse…
Muito lindo!!! Bom gosto, autêntico, uma simples e bela narração da sua vida... Escreve muito bem, poetisa de 1ª linha!!!
Adorei!!!
Paula disse…
Mimizinha...
Você é tão inteligente!
Eu sempre soube disso: você é excepcionalmente diferente.
Aliás desde que se entendeu por gente!
Siga em frente...
Sucesso sempre
sistema disse…
Uma toda vida numa historia de 1200 palavras. Simples, claro mas, muito mai atraente, impressionante e emocionante. E em cima de tudo uma língua portuguesa excelente.

Reading your texts and poems will make my language learning process much closer to real life seen from the better side.
I still do not speak portuguese (I use portunholiano) but understand it completely.
Um abraço,
Avgerinos
Obrigada Andrea pelo carinho! Você é uma amiga muito especial!

Paula, valeu maninha!

Avgerinos: Grazie amico!

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